Fórum da Igreja Batista Nacional de Areia Branca-RN


    Restituto

    Willamy David
    Willamy David

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    Data de inscrição : 08/06/2009

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    Mensagem  Willamy David em Seg Mar 08, 2010 8:30 pm

    Acompanhem, irmãos, a história do jovem Restituto...

    — Encontramos este homem, poderoso e eloqüente em palavras, ensinando ao povo que a adoração aos nossos deuses é vã, e que a existência dos ídolos é imaginária; ele pertence à estranha seita a que chamam cristianismo. — Assim expressou-se um rude soldado, ao apresentar ao prefeito da cidade um jovem e nobre cidadão, com as mãos atadas às costas.

    — Quem és tu, e de onde vens? — indagou o prefeito Hermógenes, com uma carranca ameaçadora.

    — Sou um cidadão romano de nobre nascimento. Se queres conhecer o meu nome carnal, sou chamado de Restituto, mas na profissão de minha fé, sou um cristão.

    — Não ouviste as ordens do príncipe?

    — O que ordenam elas? — perguntou Restituto, suavemente.

    — Que todos os que não sacrificarem aos deuses onipotentes sejam punidos por vários e terríveis tormentos — recitou o prefeito, exaltando-se, e olhando impacientemente o jovem nobre, na esperança de havê-lo submetido pelo terror.

    — Conheço as ordens do meu imperador — replicou corajosamente o cristão. — Todo aquele que o negar haverá de perecer em tormentos eternos.

    — Deixa de falar assim! — gritou o prefeito. — Sacrifica às deidades reverenciadas, que são os guardiões do Império, e serás amigo de César. Do contrário, sentirás o peso de nossa indignação, e serás torturado com fogo.

    — Estou preparado para oferecer-me em sacrifício ao meu Senhor Jesus Cristo. — Respon¬deu Restituto, humilde, porém corajosamente.

    Ele era um fidalgo rico e de boa posição, que abandonara o traiçoeiro caminho das honras mundanas, para seguir a trilha humilde dos seguidores do Deus crucificado.

    Corajoso, este jovem corria através das chamas devoradoras de um incêndio, para salvar uma vítima; lançava-se ao mar tempestuoso para socorrer um companheiro afogado. Valente, ansiava estar na frente da batalha, e entrava na luta mais renhida. E mais bravamente ainda, ele renunciou ao fascínio das riquezas, o sorriso da fortuna, e o quadro dourado que a fantasia pinta para a vivida imaginação da juventude. Esta era a conduta de Restituto.

    A réplica intrépida do mártir suscitou a tirania do prefeito; ele mandou bater na boca do rapaz com uma pedra. Restituto, porém, não sentiu dor; Deus, milagrosamente, amortecera-lhe os sentidos.

    — O que esperas ganhar com esta obstinação? — indagou o prefeito.

    — Por amor e temor ao meu Senhor Jesus Cristo, desprezei a corte (militiam intra palatium), e agora desejo servir unicamente ao Rei celestial, no combate eterno.

    — Mas — ajuntou o presidente —, em consideração à sua juventude e beleza, aproxima-te e sacrifica aos deuses, a fim de receber a recompensa de grande dignidade e poder.

    — Em servir ao Deus verdadeiro, não perdi nem rebaixei a minha dignidade — declarou Restituto. — As dignidades e honras da terra murcham como coisas da terra. Como se vão as flores da primavera, e as neves do inverno, assim passaram a glória e a dignidade mundana de nossos ancestrais. Mas a profissão de fé, que tira a sua nobreza de uma fonte eterna, é como esta fonte em sua duração eternal.

    Restituto foi despido. O chicote cortante enroscou-se em espirais ao redor de seus membros simétricos. Cada golpe foi registrado em sua carne macia por marcas arroxeadas e azuis. Entretanto, a agonia da dor fora removida do espírito do mártir. Por um milagre divino, ele não sofreu dores. Mais valente que nunca, e com uma eloqüência apontada como um dom prometido aos mártires, o jovem crente repreendeu o seu juiz por sua crueldade e dureza de coração:

    — Miserável inimigo de Deus — proferiu ele fervorosamente —, vê o que o Nosso Senhor faz por aqueles que o amam. Cadê as tuas ameaças e os teus tormentos? Tu deves abandonar a tua seita ímpia, e honrar ao único e grande Deus, que livra os seus servos das torturas de seus perseguidores. É muito melhor reconhecer a Ele como Deus, em vez de a estes deuses impotentes de madeira e pedra, a quem tolamente tu adoras.

    Uma reprovação tão forte e destemida como esta era um grande crime para os mártires do cristianismo. O cristão preparado para encontrar a morte - que era dos males o pior - mostrava-se eloqüente e destemido perante o tribunal dos pagãos. Restituto foi açoitado novamente, desta vez com um azorrague contendo pequenas bolas de chumbo nas correias. De novo Deus o preservou - de novo o prefeito espumou de raiva - de novo o mártir pronunciou impavidamente a sentença de retribuição, escrita no livro da vida, contra o prefeito endurecido.

    A cena da prisão foi a mais notável nessa tragédia da vida real. Deus permitiu ao seu servo realizar um grande milagre, diante do qual não sabemos se somos mais influenciados pelo poder concedido por Deus a Restituto, ou pela dureza e cegueira dos que obtiveram as vantagens do milagre. Ele revela o duro fato de que mesmo no tempo dos mártires, havia corações cegos e endurecidos, que não acreditavam nem mesmo se vissem mortos ressuscitar. Eles eram muitos, então; hoje, são uma legião.

    Quando Restituto foi lançado na prisão, encontrou o calabouço repleto de infelizes reprobos da sociedade romana: assassinos, ladrões, sediciosos, vítimas da intemperança e da paixão, cujas almas achavam-se profundamente manchadas pelo crime, e sussurrando blasfêmias em vez de oração. Entretanto, o coração amoroso e perdoador de Jesus anseia por estas pessoas; e os seus mártires são como raios de sol animadores, brilhando igualmente sobre os bons e os maus, para consolar as vítimas degradadas do crime.

    Nem bem o jovem fora posto entre eles, cercaram-no e imploraram-lhe que os libertasse, como haviam feito outros cristãos, naquela e em outras prisões da cidade. Restituto não hesitou: pôs-se de joelhos, e orou a Deus em voz alta. Os alicerces da prisão foram abalados uma luz calorosa atravessou os muros de pedra, e um delicioso aroma espalhou-se pela masmorra lúgubre e imunda. No mesmo instante, a pesada porta de ferro rangeu sobre os gonzos, e foi empurrada por mão invisível.

    — Vede — convidou Restituto — o que Deus fará àqueles que o amam. Se algum de vós companheiros de cárcere, desejardes salvar a vossa alma, ficai aqui comigo; mas se o amor à vida e à liberdade é o vosso desejo, então fugi. O Senhor rompeu as vossas cadeias e destrancou a porta de vossa prisão.

    Sem esperar para agradecer, e indiferentes ao destino de seu benfeitor, eles arremessaram-se à estreita saída, correndo para a luz do dia e para a liberdade, e não pararam a fuga até o amanhecer do dia seguinte.

    Pela manhã, os carcereiros chegaram ao presídio, e encontraram as portas escancaradas. Seus ocupantes haviam fugido. Todos, exceto o jovem cristão, que se achava ajoelhado numa esfera de luz, orando com as mãos cruzadas ao peito, alheio à chegada e à intrusão dos guardas atônitos. Os guardas não ousaram entrar. Enquanto alguns permaneciam olhando com crescente admiração o jovem salvo, outros se apressaram a contar ao prefeito o que acontecera. Ele foi atingido pelo terror, mas em sua sabedoria mundana, não deixou transparecer aos mensageiros a sua fraqueza. Fingindo coragem, ordenou que o mártir fosse novamente trazido à sua presença.

    Quando Restituto compareceu mais uma vez algemado perante ele, o prefeito iniciou um discurso preparado:

    — Até quando triunfarão as tuas artes mágicas? Até quando continuarás a blasfemar de nossos deuses, e a desafiar os nossos tormentos, imune a dor? Como rompeste as cadeias e libertaste da merecida condenação os ladrões e assassinos? Os princípios de teu credo apoiam uma moralidade tão duvidosa?

    — Não atribuas à magia as obras da mão de Deus — respondeu Restituto. — Ele, que veio do céu para salvar os pecadores, que comeu com eles, foi contado entre eles, e crucificado com eles, sabe como quebrar seus grilhões, quando se oferece ocasião para a sua glória.

    — Sacrifica! — gritou o prefeito, interrompendo o jovem.

    — A que espécie de deus ordenas que eu sacrifique? Àqueles feitos pelos artesões, de nadeira, bronze e pedra, imagens sem vida e sem sentido, que representam os demônios que sofrerão com os seus adoradores no fogo eterno?

    — É um insulto aos deuses e a mim permitir que este homem fale mais alguma coisa. Lictores, levai-o ao templo de Júpiter, no Capitólio, e se ele ainda recusar sacrificar, que seja lecapitado lá, como uma advertência aos loucos desta seita.

    Foi em consideração à sua nobreza que Restituto foi mandado ao Capitólio. A lei criminal romana, especialmente as cláusulas preparadas para a execução dos criminosos chamados cristãos, requeriam que a sentença fosse executada num dos marcos miliários, fora da cidade. Razão pela qual sempre encontramos nos Atos dos mártires que eles foram decapitados no segundo, sétimo, e décimo sexto marco miliário da Via Ápia, Latina, ou Salariana.

    "Os soldados em vão se empenharam em fazê-lo sacrificar", contam os Atos. "Tiraram-no do templo, levaram-no à praça do Capitólio, e lá o decapitaram. Jogaram-lhe o corpo próximo ao arco do triunfo de Severo, para que os cães o devorassem. Mas Justa, uma santa matrona, veio à noite com alguns servos, e levou o corpo para a sua casa, ao lado da Meta Sudans, envolvendo-o em valiosos lençóis e bálsamo odorífero. Daí levou-o em sua carruagem a um vinhedo de sua propriedade, no décimo sexto marco miliário, onde o sepultou honrosamente". Atos, 24 de maio. Bolandistas.

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